Poesia Priscilla Menezes
Vida Forma

Frantisek Drtikol - A Onda - 1925 “Os fogos dos astros e a aurora boreal estremecem no que é, apesar de tudo, a noite negra.” (Marguerite Yourcenar) Afirmativa sem reservas: amar contra toda a exceção. Era noite e andávamos, eu tropeçava nos teus pés, caíamos com a barriga rente à terra. E de tudo sobrava um riso, uma espécie de loucura. Depois eram teus dedos que me abraçavam, eu dançava com as tuas mãos. Uma lenta e corrompida valsa com teu indicador, um tango triste com o anelar e um samba sem reparos com o dedo menor. Teus olhos me acompanhavam mudos enquanto...
Ler MaisA direção dos olhos

(livremente inspirado nas fotografias que Nobuyoshi Araki fez de Yoko, sua esposa) Minhas mãos tateiam o gesto que reteria esse instante e esbarram em tua pele. Então transfiguro teu corpo estendido em um quadro, em uma imagem nomeável. Mas não há som em língua qualquer que possa te circunscrever: teu nome é teu corpo grandioso entre as feras. Gosto de te olhar enquanto tens os olhos fechados ou o rosto voltado para outra direção. Só assim te prendo. Tua matéria não resiste à solidez. Tens a escuridão marcada no peito e a alegria cravada nos olhos. Nenhuma paisagem será mais...
Ler MaisAo homem

Entrega tua arbórea ascendência pela consciência dos bichos que não sabem. Esse esquecimento será teu berço. Cria parentesco com os nós, a terra escura, o mármore e os novilhos. Tua roupa não te serve. Despe. Experimenta andar sentindo na pele o rumor de todas as fugas. Repara o que há de urgente nos corpos. E então te transmito esse dom: eis que não serás remédio de nada. Vagarás pelo tempo, supérfluo, ungido pela tua própria errância. Apenas quando souberes ser insuficiente, poderás transitar entre os corpos livres. Em liberdade, o que quer dizer, falhando, teus ímpetos te ultrapassarão, tua...
Ler MaisO sol embaralhado nos seus cílios
Foto originalmente publicada em www.ambrosia.com (monólogo imaginário de Roberto Piva para a escrita) Vou te explicar a anatomia das ruas e a das tuas pernas. Caímos sem querer nesse arremesso e aqui estamos experimentando insustentáveis ares. Crias uma órbita em torno da tua dança. Os pés rentes ao chão sujo dessa rua antiga que pisas com veemência de amante. Mas tua boca dança antes e melhor que tu, falando sem saber do que falar, congelada de repente de espanto e depois os lábios lassos por provar da cidade e de seus esgotamentos. Me apontas a uma constelação de pedregulhos, esse...
Ler MaisNotas da carne em fúria

Notas de leitura de A Fúria do Corpo de João Gilberto Noll – Sou todas as mulheres que já amaram. Sou Afrodite, Greta, Helena, Catarina, sou meu corpo contigo, a esperança de romper o hímen da pessoa que é tu, vem e te espanta com meu outro. Pega na minha xota, investiga, incendeia, reclama do alheio! - Sabe que eu te amo e o mundo tá morrendo à míngua? Ela se levantou e tinha o rosto suado, duas placas de dormência. - Sabe amor? Eu apenas ouvia. Não queria compromisso com nenhuma resposta. - Sabe que nós dois não comemos há dois dias...
Ler MaisCarta aberta e ultramarina a Adélia Prad…

Carta aberta e ultramarina a Adélia Prado. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa? Adélia, permutadora de Reinos, Falas do sacolejo intermitente dos navios, que é como os quadris dos sedutores, esses que tu tens em teus altares. E é do seio do mar que te escrevo, justo agora quando chove sem o intermédio da terra, água que vai direto do céu para seu berço de sal. Aproveito agora porque não demora o sol volta e me queima. Minha pele desconhece o conforto de um tempo manso, está sempre trêmula...
Ler MaisArquipélagos e Muambas

"Compelimos todo mar e toda a Terra a dar passagem à nossa audácia, e em toda parte plantamos monumentos imorredouros dos males e dos bens que fizemos" Tucídede, A Guerra do Peloponeso, II, 41 Assim começa o livro "arquipélagos e muambas", de José Barreto Trindade, heteronômio de Sérgio Sant'Ana Ortiz, que foi lançado na última sexta-feira no espaço da editora Multifoco na Lapa, Rio de Janeiro. Arquipélagos e Muambas é o segundo Tomo de uma epopéia de poesias experimentais intituladas Os Cinco Delirantes. O Livro se divide em duas partes, a primeira, chamada Das Paixões, e a segunda XXV Subterrâneos. Este livro segue a mesma linha que...
Ler MaisNota sobre o marginal em García Lorca

“Pelo oliveiral vinham, / bronze e sonho, os ciganos. / As cabeças levantadas e os olhos semicerrados.” – Federico García Lorca. Federico García Lorca foi um dos maiores escritores de seu tempo, nasceu em cinco de junho de 1898, em Fuente Vaqueros, período em que seu país ensaiava grandezas nas artes e nas letras. Ainda menino, García Lorca revelara-se um promissor escritor, tendo publicado seu primeiro livro só mais tarde, em 1921, sob o título Libro de Poemas. Nascido em Andaluzia, pôs-se a descrever as paisagens dessa região, o que viria a corroborar uma grande análise dos modos de vida...
Ler MaisSayat Nova: Uma canção de amor

Sua Biografia Sayat Nova (1712-1795) foi um poeta, músico e ashik¹ armênio. Seu nome verdadeiro é Harutyun Sayatyan, a denominação mais conhecida foi adotada posteriormente pelo poeta – o nome “Sayat Nova” em persa significa “Mestre das Canções”. Seus escritos e composições envolviam diversas línguas, tendo escrito na língua armênia, georgiana, turca e persa. É por muitos considerado o maior cantor e compositor que já viveu no Cáucaso. Ainda jovem Sayat Nova se destacara por sua aptidão no manuseio dos instrumentos musicais regionais, como o kamancheh, chonguri e tambur, se apresentando diversas vezes para a aristocracia de seu país. Mesmo assim,...
Ler MaisCorso, o mito da Geração Beat

Por Lucas Bertolo Gregory Nunzio Corso (1930 – 2001) foi um poeta norte-americano, membro fundamental da geração beat, ao lado de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs. Conheceu a literatura na biblioteca da prisão em que foi encarcerado, pela segunda vez, em Dannemora, por arrombamento. Um de seus primeiros escritos, Bomb, de 1958, com seu arranjo pictórico em formato de bomba e tom ambivalente, possui a célebre frase: Ó Bomba, eu te amo. Bob Dylan chegou a afirmar que, após a leitura de Gasolina, sua mente se abriu para novas possibilidades de experiência com a palavra escrita. Jack Kerouac...
Ler MaisGrodek, Georg Trakl

Sunset At The Forest Senonches - Maurice de Vlaminck Georg Trakl, expoente da poesia expressionista austríaca do início do século XX, nasceu em Salzburgo, em 3 de fevereiro de 1887, suicidando-se, em uma overdose de cocaína, em 3 de novembro de 1914, em Cracóvia. Estudos afirmam que, já durante a adolescência, Trakl consumia ópio, clorofórmio, veronal e cocaína. Em As Marcas do Real, Modesto Carone escreve que em sua poesia se reconhece a experiência do drogado: o texto alimenta-se de um cortejo de imagens intensamente coloridas onde deslizam barcas e papoulas. Sua primeira tentativa de suicídio ocorreu durante a chacina de...
Ler MaisA filosofia do poema sujo
Poema Sujo, de Ferreira Gullar Tentei, apenas com paixão, escrever um pouco das ideias que me vinham quando lia o poema sujo de Gullar ao mesmo tempo que lia o Zaratustra de Nietzsche. Este foi parte pequena de um trabalho para a academia, mas sem nenhum rigor acadêmico e por isso o apresento assim, cru, como o cu de uma moça. Espero que gostem.
Ler MaisEpitáfio para um mau soldado, de Jim Mor…
Versos de Jim Morrison Epitáfio Para um mau soldado Piscina quente e bêbada Onde está Marrakesh Abaixo das quedas A tempestade selvagem Onde selvagens caíram No fim da tarde Monstros do ritmo Você deixou seu Nada Para competir com Silêncio Espero que você saia Sorrindo Dentro do resto frio De um sonho Escrito por James Douglas Morrison Tradução de Lucas Bertolo Foto de Lucas Bertolo tirada de Jim Morrison's Scrapbook
Ler MaisVislumbres

INas plantações, minhas mãos tocam o centeioceifando as folhas de cobre e as ilusões que se arrastam nesse solo seco nesse céu de poucas nuvens nos cursos dos riose desaparecem aos meus olhos ingênuos meus olhos que são ametistas ...
Ler MaisA caneta do poeta _ Um breve relato

Eu entendo os "velhos" poetas e os amo e os acho lindos, mas vivo agarrada ao meu netbook, escrever com ele ficou mais cômodo, mais rápido. Eu sei que os "velhos" poetas condenam isso, querem sentir o cheiro da folha e da tinta da caneta, eu não, eu prefiro a agilidade dos teclados, eles acompanham com mais precisão meu pensamento. Já não procuro mais os cadernos de arames na papelaria, tenho dois computadores e penso em obter pelo menos mais um. Quando viajo fico pensando em que lugar vai estar o computador, não posso ficar sem escrever e me...
Ler MaisEu disse: Vou ver o mar, levar flores para Yemanjá.Ele disse: Cuidado pra Yemanjá não te levar, pode te confundir com uma das flores.Depois, ele me mandou uma música e disse que eu era o tão esperado sol de primavera que o aquecia depois do frio inverno. Achei brega , e amei.
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